Via CEFAVELA
Texto de Bruno Avellar Alves de Lima e Luciana Nicolau Ferrara
Evento realizado no campus Santo André da UFABC foi promovido pelo CEFAVELA e pelo INCT Produção da Casa e da Cidade.
Os avanços teóricos e as análises empíricas sobre as transformações nas relações entre a metrópole e a natureza diante da financeirização da produção do espaço e sob os desafios impostos pelas mudanças climáticas foram discutidos no seminário “Metabolismo urbano sob o domínio financeiro: natureza, imobiliário e infraestrutura na metrópole de São Paulo” realizado por meio de parceria entre o Centro de Estudos da Favela (CEFAVELA-Cepid/Fapesp) e o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) Produção da Casa e da Cidade, na quarta-feira, 19 de agosto, no campus Santo André da Universidade Federal do ABC (UFABC).
Estruturado em três mesas temáticas, o evento foi aberto ao público em geral, e contou com a presença de alunos de graduação e pós-graduação. professores, pesquisadores e profissionais que atuam no poder público. O seminário contou, ainda, com o apoio do Grupo de Pesquisa em Ecologia Política, Planejamento e Território da UFABC.
Tendo como debatedor o professor Paulo César Xavier (FAU-USP), a mesa de abertura, “Metabolismo urbano financeiro, subsunção da natureza e ajuste socioecológico” contou com exposições das professoras Luciana Ferrara (UFABC), Beatriz Rufino (FAU-USP), Lúcia Shimbo (IAU-USP) e do bolsista de pós-doutorado Bruno Avellar (UFABC). Os expositores buscaram apresentar os avanços alcançados por suas pesquisas em termos do desenvolvimento de bases teórico-conceituais interdisciplinares orientadas a iluminar a dimensão da natureza nos processos de financeirização da produção do espaço. Tomando a noção de metabolismo urbano como central, foi possível discutir como a crise ecológica tem sido convertida em fonte de novos negócios a partir de lógicas rentistas e financeiras, que envolvem um processo de reestruturação imobiliária e concessão privada de infraestruturas, processos que acabam por reproduzir e aprofundar conflitos e desigualdades.
Sob coordenação do diretor do CEFAVELA, Jeroen Klink (UFABC), a segunda mesa abordou o tema “O metabolismo financeiro na produção imobiliária e de infraestruturas”, na qual foram apresentados resultados de pesquisas de mestrado e doutorado das pesquisadoras Débora Bruno (FAU-USP), Paula Corrente (UFABC) e Laísa Chamme (UFABC). Recorrendo a casos empíricos de empreendimentos imobiliários e concessão de serviços públicos nos territórios das margens do rio Pinheiros e dos eixos de mobilidade no município de São Paulo, foram abordados processos de apropriação privada da natureza, que tem sido instrumentalizada como elemento de valorização de imóveis ou como fonte para emissão de novos títulos financeiros verdes. Na mesa foi destacado, ainda, que o avanço das privatizações de redes de saneamento, de transporte e áreas verdes impacta diretamente as favelas e comunidades de baixa renda presentes nos territórios afetados, as quais, ao invés de serem incluídas nos espaços qualificados ambientalmente, acabam por ser removidas ou expulsas.
“Ruptura metabólica, riscos e resistências nas favelas e periferias” foi o título da última mesa, a qual contou com mediação do professor Guilherme Petrella (Unifesp). Além da bolsista de pós-doutorado Letícia Rodrigues (IEE-USP), apresentaram resultados de suas investigações de doutorado, ainda em andamento, as pesquisadoras Júlia Nascimento Sá (UFABC) e Ellen Caarulli (UFABC), ambas associadas ao CEFAVELA. Encerrando o conjunto de debates, a mesa buscou explorar um conjunto de casos representativos das transformações na relação entre comunidades periféricas e as questões ambientais diante dos novos determinantes impostos pela financeirização e pelo rentismo. Recorrendo ao conceito de ruptura metabólica, as apresentações problematizaram a produção social dos riscos, as injustiças ambientais em processos de intervenção sobre favelas e os arranjos comunitários para lidar com a disposição irregular de resíduos da construção civil nas periferias. Destacou-se a importância de conciliar o avanço do conhecimento científico sobre estes territórios e o engajamento das pesquisadoras em sua melhoria.
Mais do que apresentar resultados de investigações já consolidados ou publicados, o evento apontou para a construção coletiva de uma agenda de pesquisa de longo prazo, que demanda esforços colaborativos e interdisciplinares, e que tem como foco central a busca por alternativas democráticas e populares na construção de territórios ambientalmente justos e sustentáveis.